Estudo O que é o Espiritismo

V — Então, no vosso entender, a crítica para nada serve, a opinião pública nada vale?

A. K. — Não considero a crítica como expressão da opinião pública, mas  como juízo individual, que bem pode enganar se.  Lede a história e vereis quantos trabalhos importantes foram, ao aparecer,  criticados, sem que isso os excluísse do número das grandes obras; quando, porém,  uma coisa é má, não há elogio que a torne boa.  Se o Espiritismo é uma falsidade, ele cairá por si mesmo; se, porém, é uma  verdade, não há diatribe que possa fazer dele uma mentira.  Ao nosso modo de ver, vosso livro não será mais que uma apreciação  pessoal; a verdadeira opinião pública decidirá da justeza dos vossos conceitos.  Procurarão examinar. Se mais tarde reconhecerem que vos enganastes,  vosso livro se tornará ridículo, como os que, não há muito, foram publicados contra  as teorias da circulação do sangue, da vacina, etc., etc.  Esqueciame, porém, que íeis tratar a questão ex professo, o que equivale a  dizer que a estudastes sob todas as suas faces; que vistes tudo o que se pode ver,  lestes tudo o que sobre a matéria se tem escrito, analisastes e comparastes as  diversas opiniões; que vos achastes nas melhores condições de observação pessoal;  que durante anos lhe consagrastes vigílias; em suma: que nada desprezastes para  chegar à verdade. Devo crer que tal se deu, se sois um homem sério, porque  somente aquele que fez tudo isso pode dizer que fala comconhecimento de causa.  Que juízo formaríeis de um homem que, sem conhecimento de literatura,  sem ter estudado a pintura, se erigisse em censor de uma obra literária ou de um  quadro?  É de lógica elementar que o crítico conheça, não superficialmente, mas, a  fundo, aquilo de que fala, sem o que, sua opinião não tem valor.  Para combater um cálculo é necessário opor selhe outro cálculo, o que  exige saber calcular. O crítico não se deve limitar a dizer que tal coisa é boa ou má;  é preciso que justifique a opinião por uma demonstração clara e categórica,  baseada sobre os princípios da arte ou ciência a que pertence o objeto da crítica.  Como poderá fazê-lo, quando não conhecer esses princípios?  Não tendo ideia da mecânica, podereis apreciar as qualidades, ou os  defeitos de determinada máquina?  Não. Pois bem: o vosso juízo acerca do Espiritismo, que aliás não  conheceis, não pode ter mais valor que o que, nas condições acima, emitísseis sobre  a aludida máquina. A cada passo sereis apanhado em flagrante delito de  ignorância, porque aqueles que têm estudado a matéria verão logo que a  desconheceis; donde concluirão que não sois um homem sério ou que agis de má fé;  expondo-vos, portanto, a receber, quer num, quer noutro caso, desmentido pouco  lisonjeiro ao vosso amor próprio.

Esse trecho da obra "O que é o Espiritismo", de Allan Kardec, é uma reflexão crítica sobre o valor da crítica e da opinião pública, especialmente quando feitas por pessoas que não têm conhecimento profundo do que estão criticando. Vamos por partes:

✅ Resumo e Explicação Geral
Kardec responde a um crítico (imaginário ou real) que desqualifica o Espiritismo sem conhecê-lo profundamente. Ele mostra que opiniões desinformadas ou preconceituosas não têm valor real, mesmo que venham disfarçadas de crítica ou "opinião pública".

🧠 Pontos principais explicados

1. Crítica x Opinião Pública
“Não considero a crítica como expressão da opinião pública, mas como juízo individual...”
Kardec afirma que uma crítica é apenas uma opinião pessoal — e não representa a opinião pública verdadeira, que só se forma com o tempo e com o amadurecimento da compreensão coletiva sobre um tema.

2. O valor da crítica está na competência do crítico
“É de lógica elementar que o crítico conheça, não superficialmente, mas, a fundo, aquilo de que fala...”
Ele defende que só tem autoridade para criticar alguém que realmente estudou, entendeu e analisou profundamente o assunto. Caso contrário, a crítica é vazia e desinformada.

3. A história mostra que muitas grandes ideias foram ridicularizadas no início
“Lede a história e vereis quantos trabalhos importantes foram, ao aparecer, criticados...”
Kardec lembra que muitas ideias hoje aceitas (como a circulação do sangue e a vacinação) foram inicialmente rejeitadas. O mesmo pode acontecer com o Espiritismo, que será validado ou rejeitado conforme a verdade dos fatos e não por opiniões momentâneas.

4. Se o Espiritismo for falso, cairá por si mesmo
“Se o Espiritismo é uma falsidade, ele cairá por si mesmo...”
Aqui, Kardec demonstra confiança: se for mentira, o Espiritismo desaparecerá naturalmente. Mas se for verdade, nenhuma crítica poderá destruí-lo.

5. O verdadeiro crítico precisa de preparo
“Que juízo formaríeis de um homem que, sem conhecimento de literatura, sem ter estudado a pintura, se erigisse em censor de uma obra...?”
Ele usa comparações: ninguém pode julgar uma obra de arte, literatura ou uma máquina sem conhecimento técnico. Da mesma forma, não se pode julgar o Espiritismo sem conhecê-lo a fundo.

📚 Conclusão

Kardec está defendendo a seriedade do estudo espírita e mostrando que críticas sem fundamento e sem estudo não merecem crédito. Ele apela ao bom senso e à lógica: para opinar com autoridade, é preciso conhecimento de causa.
Essa parte da obra é também uma lição atemporal sobre como lidar com o preconceito e as críticas infundadas em qualquer campo do saber.

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